Entre a guerra e as aulas

Publicado: 01 setembro 2017

O Prof. Paulo Moura é, também, jornalista internacional e esteve, recentemente, no Iraque a acompanhar os conflitos do Estado Islâmico.

Paulo Moura é docente, escritor e jornalista internacional. “Antes de descobrir que queria ser jornalista, descobri que queria escrever e que queria viajar. Eram essas as minhas paixões de criança”, confessa. Antes de se formar em Jornalismo, o professor estudou e deu aulas de História. A conclusão do curso que ditaria o seu percurso profissional coincidiu com a abertura do jornal Público, em 1990, onde trabalhou durante 23 anos, quase sempre na secção Internacional. Pelo meio, chegou a ser correspondente em Nova Iorque, durante três anos, e editor da revista semanal Pública, até ao dia em que decidiu demitir-se e tornar-se jornalista freelancer, de forma a poder conciliar o jornalismo com a atividade de escritor. Ao longo do seu percurso profissional, ganhou diversos prémios, de entidades como a AMI, a UNESCO, o Clube Português de Imprensa, entre outras. Em maio de 2017, o professor lançou o seu nono livro, intitulado “As Guerras de Fátima – Como as Visões da Irmã Lúcia Mudaram a Política Mundial”, estando, de momento, a trabalhar no próximo, que prevê ser lançado no início do próximo ano.

O Prof. Paulo Moura é, também, jornalista internacional e autor de vários livros.

Reportagens em zonas de conflito e a temática do Estado Islâmico

Paulo Moura esclarece que sempre quis ser jornalista internacional, não por gostar de guerra ou de violência, mas porque sempre sentiu “um grande impulso para estar em sítios onde estão a acontecer as coisas importantes”. Dita a história que, grande parte das vezes, estes acontecimentos estão ligados a situações de conflito. “Bad news is good news”, reflete. Durante as últimas duas décadas, o jornalista teve a oportunidade de acompanhar e escrever sobre os conflitos do Médio Oriente. Entre eles, destaca as guerras da Líbia (que acompanhou permanentemente com os rebeldes), do Iraque (na qual esteve com as forças americanas) e do Afeganistão. “A guerra do Afeganistão e a guerra no Iraque são o que determina o que está a acontecer hoje. O terrorismo, a guerra da Síria, vem daí. Portanto, teres estado lá, ajuda a perceber o que se passa hoje e é isso que faz com que essas memórias se tornem importantes para mim”, explica.

Recentemente, recebeu um subsídio de uma organização para realizar um trabalho de reportagem e optou por abordar a questão do fim do Estado Islâmico, num livro que será lançado em janeiro de 2018. Como o próprio esclarece, os trabalhos em zonas de conflito têm um custo muito elevado, sendo difícil, hoje em dia, um jornalista freelancer fazer estas viagens sem qualquer tipo de apoio. Em julho, no dia em que o Governo Iraquiano anunciou a derrota do Daesh na cidade de Mossul, Paulo Moura viajou até ao local. Durante a sua estadia, dormiu na rua, com temperaturas que rondavam os 52 graus, contactou com os locais, que ansiavam contar as suas histórias em busca de ajuda, e presenciou todo o cenário de destruição, mais um, de tantos pelos quais teve a oportunidade de passar. “A certa altura, a pessoa já vai conhecendo os sítios e o choque não é tão grande”, confessa. Da experiência, resultaram, também, algumas reportagens que foram publicadas no jornal Expresso e na revista Visão.

A reportagem “O Último Massacre do Daesh” saiu na revista Visão.

O livro está a ser escrito à medida em que as situações se vão desenrolando. Neste momento, o jornalista aguarda que o Estado Islâmico seja derrotado em Raqqa, na Síria, acontecimento que ditará o seu fim, enquanto território. “A ideia geral [do livro] é o último período do Estado Islâmico. Como é que foi, como era a vida, o que é que aconteceu às várias pessoas que viviam sob o seu regime e, também, a perspetiva deles: quem são estas pessoas, porque é que fizeram isto e o que está por detrás”, explica o professor. “Eu tenho muita curiosidade em explorar quais são as motivações, o que é que leva jovens ocidentais, por exemplo, a juntarem-se ao Estado Islâmico. Este culto da violência e da morte, de onde é que isto vem”, complementa.

As aulas na ESCS

O docente confessa que é difícil conciliar as aulas com a sua atividade enquanto jornalista e que tenta realizar os seus trabalhos no estrangeiro durante o período de férias, de forma a não prejudicar os estudantes. No entanto, já teve de dar aulas através de Skype, a partir dos locais onde se encontrava. “Para os alunos, é fantástico eu estar no Iraque e a contar o que está a acontecer”, conta, sublinhando a importância de os estudantes poderem contactar e trocar impressões com alguém que trabalha na área, que pode partilhar a sua experiência e esclarecer todas as suas dúvidas e curiosidades, que nem sempre se limitam às questões jornalísticas. “Os alunos interessam-se muito pela reportagem, pelo jornalista que sai da redação e vai para os sítios. (…) É a parte mais nobre e mais interessante do jornalismo, ainda que, hoje, seja cada vez mais difícil [de exercer]”, reflete.

*Fotografia do Prof. Paulo Moura gentilmente cedida por Booktailors/Bookoffice.